Dia Internacional da Democracia: resistir ao cerco, decidir nas urnas

Proclamado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2007, pela Resolução 62/7, e observado pela primeira vez em 2008, o Dia Internacional da Democracia é um momento de balanço e de mobilização. O tema de 2026 reforça a ligação entre participação democrática, direitos humanos e governança responsável: a exigência de que as pessoas influenciem as decisões que afetam suas vidas, o que passa por liberdade de expressão, igualdade e instituições comprometidas com a proteção dos valores democráticos.

O cenário atual apresenta obstáculos que ultrapassam as fronteiras nacionais. A democracia é ameaçada não só pela erosão interna de suas instituições, mas por ações de Estados poderosos que, em nome de defendê-la, impõem sanções, bloqueios e medidas coercitivas sobre povos inteiros. A resposta a esse quadro está na ampliação da participação, no fortalecimento de instituições transparentes e no respeito à soberania dos povos.

A América Latina conhece de perto esse movimento. A Venezuela sofre, desde 2017, sanções econômicas e financeiras dos Estados Unidos. Em 3 de janeiro de 2026, a escalada se materializou em ação direta: um comando militar dos Estados Unidos sequestrou o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, em operação que incluiu ataques à capital Caracas, e os levou para Nova York, onde Maduro foi apresentado a um tribunal sob acusações de narcoterrorismo. Cuba segue sob bloqueio econômico, comercial e financeiro há décadas, estando à beira de um colapso. A Nicarágua, por sua vez, é alvo de sanções dos Estados Unidos desde o embargo comercial de 1985 e, em 2026, de novas medidas do governo americano, num cerco que atinge a soberania e a autodeterminação de povos latino-americanos.

O caso palestino expõe o custo humano do descaso com o direito internacional. Relatórios da ONU e de organizações de direitos humanos documentam crimes de guerra e atos de limpeza étnica na Faixa de Gaza, enquanto os Estados Unidos seguem barrando, no Conselho de Segurança, resoluções voltadas à proteção da população palestina. A democracia que dizem defender se manifesta, na prática, como imposição de vontade pela força.

E no Brasil, o momento pede atenção redobrada. O país conhece o custo das interrupções democráticas: o Estado Novo (1937–1945) e a ditadura militar (1964–1985) suspenderam direitos, mataram e fizeram desaparecer centenas de militantes, torturaram milhares de pessoas, fecharam espaços de participação e impuseram censura e repressão. A Constituição de 1988 reconstruiu as bases da convivência democrática. Mas o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e a Lava Jato, além de corroerem a economia do país e os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores, foram um ataque à democracia. Somados aos ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos três Poderes em Brasília, esses episódios mostram que a democracia brasileira segue sendo alvo de grupos subservientes aos Estados Unidos, dispostos a desestabilizá-la pela violência e pela desinformação.

Em outubro de 2026, o Brasil realiza eleições gerais, com a escolha de presidenta ou presidente, governadoras e governadores, senadoras e senadores, deputadas e deputados. É o pleito mais decisivo desde a redemocratização, de caráter plebiscitário: o país decide seu rumo num momento em que estão em jogo as políticas públicas, a educação e a ciência, os direitos sociais e trabalhistas, a soberania nacional e a capacidade do Estado de enfrentar desigualdades históricas. Para o movimento sindical, a questão não é partidária, é estratégica, pois a história mostra que governos produzem consequências concretas sobre a vida de quem trabalha.

Ao mesmo tempo, a desinformação é um desafio na disputa eleitoral de 2026. As fake news circulam em grande escala e são produzidas em série, adaptadas a cada rede social e repetidas à exaustão, enquanto a correção raramente alcança a mesma audiência. Responder a tantas mentiras é difícil, e o dano acontece antes da resposta. O enfrentamento não pode depender apenas de desmentidos pontuais: exige educação midiática, regulação das plataformas digitais e participação social. Só assim a informação verificada terá condições de competir com a mentira em velocidade e alcance, e o voto de outubro poderá refletir a vontade real das urnas.

A educação ocupa posição central nesse debate. Uma sociedade democrática depende de trabalhadoras e trabalhadores da educação valorizados, de escolas públicas bem financiadas e de liberdade para ensinar e aprender. Quando a gestão escolar é definida sem diálogo com quem atua na ponta, a democracia perde substância, e as novas tecnologias, sobretudo a inteligência artificial, recolocam essa disputa: oferecem recursos, mas também concentram poder e podem aprofundar desigualdades se não houver regulação e controle democrático.

O Dia Internacional da Democracia é, assim, um convite à construção permanente de sociedades mais justas e soberanas e, neste ano de eleições decisivas, um chamado à vigilância de cada eleitora e cada eleitor brasileiro sobre os rumos do país.

Por Antônia Rangel

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