Aposentar o professor ou exauri-lo?

 

Quando o discurso da “distorção” encobre o adoecimento docente e naturaliza a exploração do trabalho na educação brasileira

Por Valter Mattos da Costa*

Em editorial, “Aposentadoria especial é distorção sem cabimento” publicado na terça-feira (24), o jornal O Globo sustenta que regras diferenciadas para professores e outros grupos seriam privilégios injustificáveis, desconsiderando as especificidades concretas do trabalho docente.

Transformar a aposentadoria docente em privilégio revela menos sobre a Previdência e mais sobre a lógica que rege o trabalho no Brasil. O problema não é o excesso de direitos, mas a escassez de reconhecimento.

Ao tratar a aposentadoria especial como distorção, o editorial ignora a materialidade do trabalho docente. Salas superlotadas, múltiplas jornadas, violência simbólica e precarização produzem desgaste contínuo, invisível para quem observa de fora.

O professor não carrega peso físico comparável a outras profissões insalubres. Carrega algo mais difícil de medir: o esgotamento psíquico, a exigência emocional permanente e a tensão constante da relação pedagógica.

Esse sofrimento não é episódico. Ele se estrutura na própria organização do trabalho. Exige do professor uma presença subjetiva contínua, uma escuta ativa, uma mediação constante de conflitos e expectativas contraditórias.

Reduzir isso a uma questão de longevidade biológica é um erro conceitual. Não se trata apenas de viver mais, mas de como se vive e se trabalha ao longo dessa vida.

O discurso que nega a especificidade do magistério opera como estratégia ideológica. Ao apagar o sofrimento, transforma a exceção em privilégio e desloca o debate da proteção social para o moralismo fiscal.

Nesse movimento, constrói-se uma narrativa em que direitos aparecem como excessos. O professor deixa de ser trabalhador submetido a condições adversas e passa a ser visto como beneficiário de vantagens indevidas (contribuindo para o anti-intelectualismo que vivemos).

Essa inversão não é neutra. Ela reorganiza o senso comum, produzindo consentimento em torno da retirada de direitos. O que antes era proteção passa a ser apresentado como distorção.

Paulo Freire já alertava que a educação não é neutra. Tampouco é neutra a forma como se fala sobre os educadores. Deslegitimar sua condição de trabalho é também deslegitimar sua função social.

Há estudos (inclusive da OCDE) que demonstram o alto índice de adoecimento mental entre professores, além de problemas vocais e exaustão crônica. Não se trata de opinião, mas de evidência acumulada.

Ignorar esses dados é uma escolha. E essa escolha serve a um projeto: reduzir custos sociais, mesmo que isso implique aprofundar o sofrimento daqueles que sustentam a escola pública.

O professor, nesse cenário, é convocado a dar mais de si – mais tempo, mais energia, mais subjetividade — sem que isso seja reconhecido como desgaste legítimo.

Quando adoece, é individualizado. Quando reivindica direitos, é acusado de privilégio. Quando se aposenta, é tratado como distorção.

O regime de aposentadoria diferenciada, longe de ser um excesso, é uma tentativa – ainda insuficiente – de responder a um trabalho que consome não apenas o corpo, mas a própria condição subjetiva do trabalhador.

Negá-la é reforçar um modelo que extrai ao máximo até o esgotamento. Um modelo que transforma o compromisso pedagógico em fonte de desgaste contínuo e silencioso.

Não se trata de defender privilégios. Trata-se de reconhecer que nem todo trabalho se desgasta da mesma forma — e que justiça social exige considerar essas diferenças.

O verdadeiro escândalo não é a aposentadoria do professor. É a naturalização de um sistema que o adoece e, ao mesmo tempo, o responsabiliza por isso.

Enquanto este debate, neoliberal, permanecer preso à lógica da contenção de direitos, continuará ignorando o essencial: a educação pública se sustenta sobre corpos e mentes exaustos. (Lembrem-se: o apagão da profissão de professor, só aumenta).

E um país que trata seus professores como distorção revela, no fundo, o valor que atribui ao próprio futuro.

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora

 

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