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Os alunos leem pouco?

Dados são essenciais por possibilitar o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes. Além disso, permitem à imprensa informar melhor a população. Para Andrea Bergamaschi, gerente de projetos do Todos Pela Educação, a avaliação educacional brasileira é uma das mais avançadas do mundo. “Há muitos estudos sobre o tema, evoluímos muito nos últimos 20 anos no desenvolvimento de pesquisas”.

É através de estatísticas que a reportagem tenta responder cinco perguntas referentes à educação brasileira. Que tal discutir o desempenho dos alunos brasileiros em matemática utilizando sua principal ferramenta, os números? Ou medir falhas no acesso à educação com percentuais? Todos os dados a seguir são de fontes oficiais.

Falta acompanhamento dos pais no aprendizado dos alunos?
Na pesquisa feita pela Prova Brasil 2011 aplicada aos alunos do 5º ano, 97% responderam que os pais os incentivam a estudar e 95% a fazer o dever de casa e trabalhos escolares. Ainda que alto, o número diminui para 83% quando questionados se as famílias conversam sobre o que acontece na escola.

Para o 9º ano, os números não são muito diferentes. 99% dos alunos responderam que há incentivo dos pais ao estudo e 95% das respostas foram positivas quanto à motivação para fazer os deveres de casa e trabalhos escolares. 74% afirmaram que os pais conversam sobre sua rotina estudantil.

Por fim, o número percentual de alunos do 5º e 9º ano que declaram que os pais vão sempre ou quase sempre à reunião dos pais e professores é o mesmo: 59%.

Por sua vez…

Questão 55: Assinale sua posição em relação às afirmações abaixo, que se referem aos possíveis problemas de aprendizagem dos alunos da(s) série(s) avaliada(s): estão relacionadas à falta de assistência e acompanhamento da família nos deveres de casa e pesquisas dos alunos. (Prova Brasil 2011 – aplicada a professores de escolas públicas brasileiras)

…95% dos 225.569 docentes que responderam a questão concordaram com a afirmação. Para eles, as ações dos familiares são um dos fatores que definem o desempenho dos estudantes brasileiros – e isso não vai bem.

Andrea Bergamaschi, gerente de projetos do Todos Pela Educação, acredita que o incentivo dos pais ao estudo dos filhos existe na maioria dos casos. Mas, por conta da alfabetização dos familiares, geralmente não há como estes ajudarem mais diretamente nos deveres e trabalhos escolares. “O quanto os pais poderão ajudar vai depender de suas limitações no aprendizado. Quando isso acontece, cabe à escola suprir essas necessidades”, afirma.

A maioria das escolas públicas brasileiras não tem estrutura para atender alunos com deficiência?
Segundo dados preliminares do Censo Escolar da Educação Básica do INEP, 516.610 alunos com deficiência se matricularam na Educação Especial das redes estaduais e municipais brasileiras em 2013. A julgar pelas estatísticas do Censo Escolar 2011, a maioria das escolas não apresenta estrutura para receber esses alunos. Somente 194.932 têm dependências acessíveis aos portadores de deficiência – ou seja, 18%.

Analisando-se especificamente alguns casos, observa-se que a estrutura é deficitária em muitos aspectos. Mais da metade (51%) dos diretores consultados na Prova Brasil 2011 afirma que não há, na sua escola, um sanitário adequado a pessoas com deficiência. 54% relatam, ainda, que não há, nos ambientes de sua escola, soleiras niveladas com o piso do corredor, pequenas rampas ou degraus de no máximo um centímetro e meio. Além disso, 69% dos diretores dizem que não há materiais didáticos e paradidáticos (braile, caracteres ampliados, libras, texturas, contrastes) em suas escolas.

Além de melhorar a estrutura escolar para atender aos deficientes, Andrea aponta a qualidade do ensino especial como outra grande necessidade da educação brasileira. “Só assim seria possível cumprir a Constituição, que prega acesso à educação para todos”.

Alunos são piores em Matemática do que em Português?
Dados da Prova Brasil 2011 mostram que 67% dos alunos de escolas públicas do 5º ano e 88% dos alunos de 9º ano não aprenderam o adequado em matemática, na competência de resolução de problemas. Ambos os números são maiores que os apresentados para a disciplina de português. Na leitura e interpretação de textos, 63% dos estudantes do 5º ano e 78% dos estudantes do 9º ano não tiveram desempenho satisfatório.

Avaliando os valores de aprendizado em alguns Estados, a tendência se repete:

São Paulo: 44% (5°) e 25% (9°) tiveram desempenho adequado em português. 42% e 12%, em matemática.
Rio de Janeiro: 41% e 25% em português. 38% e 14% em matemática.
Rio Grande do Sul: 42% e 28% em português. 38% e 17% em matemática.
Bahia: 20% e 13% em português. 15% e 5% em matemática.
Amazonas: 28% e 16% em português. 22% e 8% em matemática.

Apenas os estudantes do 5° ano no Paraná apresentaram desempenho melhor em matemática do que em português: 46% contra 45%.

Apesar das estatísticas de desempenho sugerirem o contrário, a maioria dos alunos – tanto de 5º, quanto de 9º ano – procura fixar o conteúdo através dos deveres de casa. Segundo as respostas da Prova Brasil, 73% dos estudantes de 5º ano e 58% dos estudantes de 9º ano fazem as lições de língua portuguesa sempre ou quase sempre. O número é próximo aos de que também o fazem em matemática, 76% e 57% nos respectivos anos. Para o 9º ano, há outro dado interessante: 65% gostam de estudar matemática, valor menor que os que gostam de português, 74%.

Uma explicação exposta por Andrea é a de que o contato com a língua portuguesa é mais presente no cotidiano que os números, “ainda que estejam mais presentes do que se imagina”. No entanto, faz questão de apontar os números de aprendizado de ambas as matérias como péssimos. “Os alunos acumulam dificuldades ao longo dos anos, o que se reflete no Ensino Médio”.

Alunos brasileiros leem pouco?
Segundo o questionário da Prova Brasil, a leitura ainda está longe de ser uma unanimidade entre os estudantes brasileiros. Apenas 30% dos alunos de 9º ano leem livros sempre ou quase sempre, número menor que o apresentado pelos de 5º ano: 45%. Também não se mantêm atualizados por meio de jornais. 39% (5º) e 34% (9º) deles nunca ou quase nunca busca notícias no veículo impresso.

As preferências de leitura são diferentes entre os dois anos avaliados. Os estudantes de 5º ano optam pelas revistas em quadrinhos (58%), batendo o percentual dos que preferem a internet (40%). Para o 9º ano, os lugares se invertem – 53% leem conteúdo virtual sempre ou quase sempre, diante dos 31% que recorre frequentemente às HQs.

Gustavo Gouveia, coordenador de projetos do Instituto Brasil Leitor, acredita que a falta de leitura ocasiona desempenhos mais baixos. “O livro é um objeto que proporciona conhecimento, motiva a pensar. A falta do recurso torna o aluno totalmente dependente da explicação do professor. Não há um complemento”, diz. Uma das soluções para o problema apontadas por Gouveia é estimular o hábito a partir de outros materiais – como as HQs e a internet.

O coordenador defende ainda investimentos e projetos para oferecer melhor estrutura e acesso aos livros, adaptando desde os locais onde eles são disponibilizados até seus preços. De acordo com Gouveia, é isso que dá força ao incentivo dos pais e professores, as pessoas que mais influenciam na questão. A motivação, assim como os projetos de leitura desenvolvidos no País, tem de ser contínua e frequente, além de existir por um longo tempo.

As taxas de reprovação e de abandono escolar andam juntas?
Pelos últimos dados consolidados do Censo Escolar do INEP, de 2012, é possível observar as taxas de reprovação e abandono escolar na rede pública dos municípios brasileiros. Usando exemplos, se observa que a taxas são proporcionais em algumas cidades, como Pelotas. No entanto, em outras, como São Caetano do Sul, essa tendência não se confirma.

Na cidade gaúcha de Pelotas, o índice de reprovações no ensino médio em 2012 foi de 18,4%. O valor é um alerta para intervenção imediata no trabalho pedagógico das escolas públicas do município, segundo o INEP – assim como o índice de abandonos no mesmo período e nível, que foi praticamente o mesmo: 18,3%.

Em São Caetano do Sul, porém, há alto número de reprovações no ensino médio e poucos abandonos. Em 2012, 20,4% dos estudantes não obtiveram aprovação em uma das três séries. O número de abandonos, de 2,7%, é considerado baixo segundo o INEP. Analisando os dados de 2011, as estatísticas se repetem. Diante de 17,1% de alunos reprovados, houve taxa de 2,2% para os abandonos.

Para Salvador, a ordem das taxas se inverte. A cidade baiana teve 21,6% dos estudantes deixando a escola em 2012. Houve menos reprovações no período: 17,6% dos alunos tiveram que repetir as séries.

 

Fonte: Terra / Educação

 

 

Jorn. FERNANDA MACHADO

Assess. de Imprensa e Comunic. do Sinpro Goiás